quarta-feira, 23 de setembro de 2026

Quem julga a carroça não conhece a estrada

Por Sandro Oliveira

Vou contar um caso que eu vi, mas vi em um sonho. Aconteceu num lugarzinho sem nome, desses que só tem uma vendinha, uma sombra de cajueiro e o chão batido de terra. Eu estava ali, só observando. Um homem precisava levar uma mercadoria. Coisa pouca, mas pesada para as pernas. Precisava de um carroceiro.
 
O carroceiro estava logo ali, no ponto. Um homem quieto, de chapéu desbotado de sol. Na frente dele, um burro velho, daqueles que já viu tudo, e uma carroça toda desengonçada.
 
O homem da mercadoria olhou, torceu o nariz e disse pro amigo do lado, alto o suficiente para a alma ouvir:
 
"Não vou levar a mercadoria com aquele carroceiro, não. Olha lá. Um burro velho e uma carroça toda desengonçada. Vai quebrar no meio do caminho."
 
O carroceiro não ouviu. Ou fingiu que não ouviu, que é o jeito dos sábios se defenderem. Só cutucou de leve o burro e saiu do ponto, devagar, para outro canto. Passou um tempo. A mercadoria continuava lá.
 
O homem ficou sem paciência. Olhou para longe e viu, uma carroça vindo. Gritou, sem nem reparar direito quem era: "Ô carroceiro! Chega aí, vamos fazer um carreto!"
 
Era o mesmo. Só que ele não tinha percebido que era a mesma pessoa de quem tinha falado mal há minutos.
 
O carroceiro foi se aproximando. Não vinha com pressa, nem com raiva. Vinha cantando. Uma cantiga baixinha, quase um bendito, que o burro velho parecia conhecer de cor, porque balançava a cabeça no ritmo. Quando chegou perto, o homem finalmente reconheceu o chapéu. Ficou sem graça. Vermelho de vergonha. E aí deu pra ouvir direito o que o carroceiro cantava.
 
O carroceiro parou na frente dele, sorriu sem dente, mas com uma paz que desarmava. E disse, simples: "Vamos levar, patrão?"
 
O homem não sabia onde enfiar a cara. Mas a mercadoria precisava ir. E, no fim, foi naquela mesma carroça desengonçada, puxada por aquele mesmo burro velho, que tudo chegou ao destino.
 
E aí eu acordei e fiquei pensando...
 
Quantas vezes na vida a gente não faz igual a esse homem? A gente olha para a carroça do outro e julga que ela não serve, que é velha, torta, desengonçada demais para o nosso peso. E, sem perceber, é justamente dela que a gente vai precisar lá na frente, quando a mercadoria da vida ficar pesada demais para carregar sozinho.
 
No fim, o sonho me ensinou que Deus não usa carroças novas para nos ensinar humildade. Ele usa as desengonçadas. Aquelas que rangem, mas que nunca deixam de chegar.

E que toda língua apressada um dia vai ter que gritar, de longe, pedindo ajuda justamente para quem ela desprezou de perto.

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