Por Sandro Oliveira
Vou contar um caso que
eu vi, mas vi em um sonho. Aconteceu num lugarzinho sem nome, desses que só tem
uma vendinha, uma sombra de cajueiro e o chão batido de terra. Eu estava ali,
só observando. Um homem precisava levar uma mercadoria. Coisa pouca, mas pesada
para as pernas. Precisava de um carroceiro.
O carroceiro estava
logo ali, no ponto. Um homem quieto, de chapéu desbotado de sol. Na frente
dele, um burro velho, daqueles que já viu tudo, e uma carroça toda desengonçada.
O homem da mercadoria
olhou, torceu o nariz e disse pro amigo do lado, alto o suficiente para a alma
ouvir:
"Não
vou levar a mercadoria com aquele carroceiro, não. Olha lá. Um burro velho e
uma carroça toda desengonçada. Vai quebrar no meio do caminho."
O carroceiro não ouviu.
Ou fingiu que não ouviu, que é o jeito dos sábios se defenderem. Só cutucou de
leve o burro e saiu do ponto, devagar, para outro canto. Passou um tempo. A
mercadoria continuava lá.
O homem ficou sem
paciência. Olhou para longe e viu, uma carroça vindo. Gritou, sem nem reparar
direito quem era: "Ô carroceiro!
Chega aí, vamos fazer um carreto!"
Era o mesmo. Só que ele
não tinha percebido que era a mesma pessoa de quem tinha falado mal há minutos.
O carroceiro foi se
aproximando. Não vinha com pressa, nem com raiva. Vinha cantando. Uma cantiga
baixinha, quase um bendito, que o burro velho parecia conhecer de cor, porque
balançava a cabeça no ritmo. Quando chegou perto, o homem finalmente reconheceu
o chapéu. Ficou sem graça. Vermelho de vergonha. E aí deu pra ouvir direito o
que o carroceiro cantava.
O carroceiro parou na
frente dele, sorriu sem dente, mas com uma paz que desarmava. E disse, simples: "Vamos
levar, patrão?"
O homem não sabia onde
enfiar a cara. Mas a mercadoria precisava ir. E, no fim, foi naquela mesma
carroça desengonçada, puxada por aquele mesmo burro velho, que tudo chegou ao
destino.
E aí eu acordei e
fiquei pensando...
Quantas vezes na vida a
gente não faz igual a esse homem? A gente olha para a carroça do outro e julga
que ela não serve, que é velha, torta, desengonçada demais para o nosso peso. E,
sem perceber, é justamente dela que a gente vai precisar lá na frente, quando a
mercadoria da vida ficar pesada demais para carregar sozinho.
No fim, o sonho me
ensinou que Deus não usa carroças novas para nos ensinar humildade. Ele usa as
desengonçadas. Aquelas que rangem, mas que nunca deixam de chegar.
E que toda língua
apressada um dia vai ter que gritar, de longe, pedindo ajuda justamente para
quem ela desprezou de perto.
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