Por Sandro Oliveira
No passado, a chegada de um circo em nossa cidade era motivo de grande felicidade tanto para os mais jovens quanto para os mais velhos. Era um show repleto de palhaços com perna de pau, dançarinas, acrobatas... Uma verdadeira celebração! Nos primeiros dias, eu não comparecia. Mas na semana seguinte, lá estava eu. Sentado na arquibancada de madeira, no alto, segurando um pacote de pipoca, ansioso pelo início do show.
Respeitável público! Com essa saudação e um cordial boa noite, o apresentador recebia o público calorosamente. Todos nós retribuíamos com grande animação. Aplaudíamos os trapezistas e malabaristas e nos divertíamos muito com os palhaços. Suas atrapalhadas e o carro velho que parecia prestes a se desintegrar, além das situações cômicas em que se envolviam, provocavam risadas. Eu ficava encantado com os trapezistas, o artista do equilíbrio e o ilusionista. Em uma das apresentações, até mesmo o globo da morte foi exibido, mas o que realmente me cativava eram os palhaços.
Lamento dizer que minha experiência foi bem diferente da última vez que fui ao circo. Desta vez, acompanhado de minhas duas filhas, na época com 8 e 15 anos de idade, não consegui sentir a mesma alegria e empolgação. Percebi que, aos poucos, os palhaços talentosos estão se tornando raridade, dando espaço a palhaços sem criatividade. As bailarinas também não dançam mais como antigamente; suas apresentações agora incluem danças sensuais que chegam a ser inadequadas. Isso gera um desconforto para os pais que estão com seus filhos. Eu, minhas filhas e suas amigas nos sentimos constrangidos ao ouvir conteúdos impróprios vindos dos palhaços.
Deixamos o show no meio da apresentação, se é que aquilo podia ser considerado um show. Ao sair do circo, expressei minha decepção a um amigo, que me respondeu que isso aconteceu porque eu não era mais uma criança, e que aquela experiência já não me surpreendia mais.
Lamentavelmente, percebi em suas falas que a inocência está se esvaindo. Antigamente, até os adultos apresentavam um toque de ingenuidade, mesmo que escasso. O mundo era repleto de mistérios, e os palhaços costumavam fazer brincadeiras divertidas e inofensivas. De fato, não compartilhei de sua visão, pois minha filha, que na época tinha 8 anos, não sorriu em nenhum momento. Ela repetia insistentemente: “Esses palhaços são engraçados, vamos embora”.
Para as pessoas da minha faixa etária, fica claro o que quero expressar. Tenho um grande apreço por visitar circos e considero importante apoiar essa forma de cultura popular, que frequentemente não é bem aceita nas cidades que atravessam. Compreendo os desafios que eles enfrentam, mas, ainda assim, é fundamental que se atualizem. Afinal, a magia do circo não deve se apagar.
Texto de abril de 2010

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